"Europa parece perdida quando tenta convencer Trump a mudar"
- 23/01/2026
"Em vez de se tornar numa verdadeira potência global, a Europa continua a ser um belo, mas fragmentado, caleidoscópio de pequenas e médias potências", lamentou Zelensky no Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça, acrescentando que "a Europa parece perdida quando tenta convencer o Presidente norte-americano a mudar" as suas posições.
Num discurso contundente, o Presidente ucraniano condenou a inação da Europa num mundo repleto de desafios, incluindo a invasão russa do seu país, afirmando que "nada mudou" num ano e que por vezes se sente como se estivesse no filme "Feitiço do Tempo", em que o protagonista está condenado a reviver o mesmo dia até que mude de atitude.
"No ano passado, aqui em Davos, terminei o meu discurso com as palavras: 'A Europa precisa de saber defender-se'. Passou um ano e nada mudou. Ainda estamos numa situação em que preciso repetir as mesmas palavras", declarou.
Para Zelensky, a resposta à questão de saber porque é que a Europa se mantém nesta situação não está apenas relacionada com as ameaças existentes ou potenciais, na medida em que "todos os anos trazem algo de novo para a Europa e para o mundo".
Este ano, a novidade é a Gronelândia e o desejo de Trump de controlar o território autónomo dinamarquês sob o pretexto da segurança dos EUA e da região do Ártico.
"É evidente que a maioria dos líderes simplesmente não sabe o que fazer. Parece que todos estão à espera que os Estados Unidos se acalmem em relação a esta questão, na esperança de que desapareça. Mas e se não desaparecer? O que faremos então?", questionou.
O Presidente ucraniano mencionou também a brutal repressão dos protestos no Irão como outro exemplo de como "o mundo não fez o suficiente para ajudar o povo iraniano", que "se afogou em sangue" enquanto a Europa celebrava o Natal e o Ano Novo.
"Quando os políticos voltaram ao trabalho e começaram a definir uma posição, o 'ayatollah' [líder supremo iraniano, Ali Khamenei] já tinha matado milhares. E o que será do Irão depois deste derramamento de sangue?", perguntou ainda, dando ele próprio a resposta: "Se o regime sobreviver, enviará um sinal claro a todos os bandidos -- 'matem pessoas suficientes e permanecerão no poder'".
O Presidente ucraniano virou depois a atenção para a Venezuela, onde no início do ano os Estados Unidos depuseram o Presidente, Nicolás Maduro, capturado e levado para Nova Iorque, onde enfrenta acusações relacionadas com tráfico de droga.
"Havia opiniões divergentes sobre isto, mas o facto é que Maduro está a ser julgado em Nova Iorque. Infelizmente, [o Presidente russo, Vladimir] Putin, não está a ser julgado", lastimou, ao lembrar que a Ucrânia se prepara para assinalar o quarto ano da invasão de Moscovo, iniciada em 24 de fevereiro de 2022.
Apesar disso, "o homem que a iniciou não só está livre, como ainda luta para recuperar o seu dinheiro congelado na Europa", continuou Zelensky, criticando que, quando chegou a altura de utilizar estes bens para a defesa da Ucrânia, "a decisão foi bloqueada" pelos líderes europeus.
"É Putin que está a tentar decidir como devem ser utilizados os ativos russos congelados, não aqueles que têm o poder de o punir por esta guerra", condenou.
Zelensky criticou ainda a falta de "progressos suficientes" para que um tribunal especial comece a operar na Ucrânia, que vários países europeus se comprometeram a criar, mas que ainda não tem sede nem equipa.
"Com demasiada frequência, na Europa, há sempre algo mais urgente do que a justiça", observou, sugerindo que a Coligação da Boa Vontade, promovida pelos principais aliados europeus de Kiev, deve deixar de ser apenas uma "coligação de boas intenções" e passar a ser uma coligação de ação.
"A Europa adora discutir o futuro, mas evita agir hoje. Esse é o problema", descreveu Zelensky, voltando a confrontar os líderes europeus: "Porque é que o Presidente Trump pode deter os petroleiros da frota secreta russa e confiscar petróleo, mas a Europa não?".
O líder ucraniano referiu que o petróleo que circula ao longo da costa europeia financia uma guerra na Europa e destabiliza o continente, que precisa de "forças armadas unificadas" para defender o território neste período turbulento.
"Hoje, a Europa depende unicamente da crença de que, se surgir perigo, a NATO agirá. Mas ninguém viu a aliança em ação de facto", alertou, voltando a confrontar os líderes europeus sobre a resposta dada a uma eventual invasão da Lituânia ou ataque à Polónia.
Aqueles navios "podiam afundar-se perto da Gronelândia tão facilmente como perto da Crimeia", destacou ainda, acrescentando que se, a Ucrânia fizesse parte da NATO, podia resolver a questão da frota fantasma russa.
No mesmo sentido, questionou o propósito de enviar "30 ou 40 soldados" para defender a Gronelândia e a mensagem que isto passa para Putin, para a China e sobretudo para a Dinamarca.
[Notícia atualizada às 17h34]





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