NATO e Afeganistão: Aliados criticam Trump por declarações "inaceitáveis"
- 26/01/2026
Lá fora, os últimos dias foram marcados pelas reuniões de representantes dos EUA, Ucrânia e Rússia para a negociação do conflito no Leste europeu, por mais uma morte às mãos do ICE [Serviço de Imigração e Alfândega] nos Estados Unidos, e também por declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação à atuação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) no Afeganistão.
Tudo se começou a desenrolar na quinta-feira, quando, numa entrevista ao canal Fox News, Trump criticou o papel de outros Estados-membros da NATO durante os 20 anos de conflito no Afeganistão, alegando que os aliados "ficaram um pouco afastados da linha da frente" e que os EUA "nunca precisaram deles".
Trump referia-se à intervenção da coligação internacional liderada por Washington para expulsar a rede terrorista Al-Qaeda, na sequência dos atentados de 11 de setembro de 2001.
Aliados reagem com "espanto": Declarações são "inaceitáveis"
A posição não caiu bem aos aliados europeus, que não demoraram a reagir e a agradecer às tropas dos respetivos países. Logo na sexta-feira, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, sugeriu que Trump pedisse desculpa pelas declarações.
"Nunca esquecerei a coragem, a bravura e o sacrifício que fizeram pelo país", disse, considerando as declarações de Donald Trump "insultuosas e, francamente, chocantes".
"Se eu me tivesse expressado mal dessa forma, ou dito essas palavras, certamente pediria desculpa", vincou.
Mais de 150 mil soldados britânicos serviram no Afeganistão nos anos após a invasão liderada pelos EUA, o maior contingente depois do norte-americano, e 457 morreram na campanha.
Starmer foi mais longe e horas depois falou mesmo com Trump, também sobre a necessidade de reforçar a relação entre Londres e Washington. Perante Starmer, Trump tentou redimir-se, saudando, na sua rede social, Truth Social, a ajuda prestada pelos soldados do Reino Unido na guerra do Afeganistão, assinalando que "estarão sempre ao lado dos Estados Unidos."
Para além do pedido de desculpa sugerido por Starmer, as críticas continuaram a chegar aos EUA vindas da Europa, com o presidente francês, Emmanuel Macron, a reiterar a "gratidão" às famílias dos soldados franceses mortos no Afeganistão.
"Estas declarações inaceitáveis não exigem comentários. É às famílias dos soldados caídos que o Chefe de Estado deseja oferecer conforto e reiterar a gratidão e a respeitosa recordação da nação", afirmou fonte da presidência francesa, citada pela Agência France-Presse (AFP).
França manteve a presença militar no Afeganistão de 2001 a 2014, sofrendo 89 mortos e mais de 700 feridos neste teatro de operações.
Tal como Macron, também a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, reagiu no sábado, exigindo o respeito de Trump.
"O governo italiano tomou conhecimento com espanto das declarações do presidente Trump de que os aliados da NATO 'ficaram para trás' durante as operações no Afeganistão", escreveu Meloni, em comunicado, acrescentando que Washington e Roma estão "unidos por uma forte amizade", que se torna "ainda mais necessária face aos muitos desafios que hoje enfrentamos."
E Meloni atirou: "Mas, a amizade exige respeito, condição fundamental para continuarmos a garantir a solidariedade que é a base da Aliança Atlântica."
A líder do governo ultraconservador de Itália recordou ainda que, "após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, a NATO ativou o artigo 5.º pela primeira e única vez na sua história: um ato extraordinário de solidariedade para com os Estados Unidos".
Note-se que 53 soldados italianos foram mortos em combate e mais de 700 ficaram feridos enquanto participavam "em operações de combate, missões de segurança e programas de treino para as forças afegãs."
Também a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, repudiou as declarações de Trump, apontando: "É insuportável que o presidente norte-americano esteja a questionar o compromisso dos soldados aliados no Afeganistão".
Segundo as Forças Armadas dinamarquesas, 44 soldados dinamarqueses morreram no Afeganistão: 37 em combate e outros sete devido a doença, acidente ou outros ferimentos. "A Dinamarca é um dos países da NATO que sofreu as maiores perdas per capita", disse a ainda líder dinamarquesa.
O governo alemão também reagiu, pela voz do ministro da Defesa, Boris Pistorius, recordando o "preço alto" para a Alemanha no conflito no Afeganistão.
"Cinquenta e nove soldados e três polícias perderam a vida em combate, atentados ou acidentes", enquanto "inúmeros outros sofrem ainda hoje com as sequelas físicas e psicológicas desse período", detalhou o ministro, citado pela AFP, deixando ainda a promessa: "Honraremos o compromisso e a coragem dos nossos soldados no Afeganistão, independentemente das críticas."
Portugal ainda não terá tecido qualquer comentário acerca das declarações de Trump, nem da parte do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, nem do Governo - seja o primeiro-ministro, Luís Montenegro, ou o ministro da Defesa, Nuno Melo. Houve, no entanto, um antigo governante que falou sobre o assunto.
Numa publicação no Facebook, o antigo ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, repudiou as declarações de Trump, que, segundo Santos Silva, "não passa de um aldrabeco que descobriu um defeito ósseo nos pés para escapar ao serviço militar."
"Todos os nossos militares se destacaram pelo seu profissionalismo e competência. (...) Todos correram riscos enormes. Dois morreram", salientou.
O antigo ministro disse ainda que o presidente dos EUA "não pode insultar os mortos de todos os aliados e, em particular, não pode insultar os portugueses mortos e veteranos que serviram a luta contra o terrorismo e cumpriram os deveres de aliado, sem que uma voz portuguesa se levante e diga: alto, homem, com a honra das Forças Armadas Portuguesas ninguém pode brincar!".
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