Relatório sobre queda de helicóptero no Douro desmente piloto. O que diz?
- 29/08/2025
As causas da queda do helicóptero que caiu, a 30 de agosto passado, em Lamego, distrito de Viseu, e vitimou cinco militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) / Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS), podem pôr em causa a atuação do piloto, o único sobrevivente.
Esta quinta-feira, o relatório final do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), concluiu que houve "cancelamentos de missões com desvios às trajetórias no regresso às respetivas bases sem aparente justificação" e que o "relaxar dos procedimentos ou simplesmente a aceitação de desvios como os voos a baixa altitude sem motivo de missão [...] poderiam ter impedido a ocorrência".
A Defesa do piloto do aparelho, que foi o único sobrevivente da queda, considera a conclusão "tendenciosa" e "parcial".
Como foi o acidente?
Um helicóptero de combate a incêndios caiu no rio Douro, em agosto do ano passado. O acidente provocou a morte a cinco militares da Unidade de Emergência de Proteção e Socorro da GNR, com idades entre os 29 e os 45 anos.
Recorde-se que o aparelho caiu no rio Douro pelas 12h50 a 30 de agosto de 2024, próximo da localidade de Samodães, Lamego, e transportava um piloto e uma equipa de cinco militares da Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPC) que regressavam de um fogo no concelho de Baião.
O piloto, único sobrevivente do acidente, foi constituído arguido pelo Ministério Público, sendo suspeito dos crimes de homicídio negligente e condução perigosa de meio de transporte por ar, água ou caminho de ferro.
As conclusões do relatório do GPIAAF
Segundo relatório do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), o helicóptero desrespeitou a altitude mínima, sendo estes desvios de rota, sem motivos operacionais e em zonas paisagísticas, aceites ao longo dos anos pelos envolvidos no combate aéreo aos incêndios.
A investigação constatou a existência de "cancelamentos de missões com desvios às trajetórias no regresso às respetivas bases sem aparente justificação", em várias bases operacionais espalhadas pelo país.
"O relaxar dos procedimentos ou simplesmente a aceitação de desvios como os voos a baixa altitude sem motivo de missão, coincidentemente sobre zonas de interesse paisagístico, são práticas observadas com alguma frequência e que, se evitadas, poderiam ter impedido a ocorrência", frisa o GPIAAF.
Refere, ainda, que "a decisão do piloto na escolha da trajetória de regresso à base" de Armamar, distrito de Viseu, após cancelada a missão de combate a um incêndio no concelho de Baião, distrito do Porto, ao sobrevoar o rio Douro "a elevada velocidade e baixa altitude, aumentando consideravelmente o risco do voo", contribuiu para a queda do AS350 - Écureuil.
Conclusão contraria declarações do piloto. E agora?
Estas conclusões não vão de encontro às explicações que tinham sido inicialmente dadas pelo piloto do aparelho, que aos investigadores do GPIAAF disse ter observado, antes do acidente, "uma ave de médio porte" na mesma linha de voo, obrigando a "um desvio", e pelo seu advogado que apontou "falha mecânica" como causa para a queda do aparelho nas águas do Douro.
"Não temos dúvidas nenhumas de que foi falha mecânica. O meu cliente diz que os comandos ficaram presos e agora esperemos que a investigação nos diga o porquê", disse à Lusa, cinco dias após o acidente, Albano Cunha, advogado do piloto.
A investigação afirmou na altura que "não detetou quaisquer falhas técnicas ou irregularidades relacionadas com o helicóptero que pudessem ter tido qualquer influência na sequência dos acontecimentos" e confrontado recentemente com as conclusões do relatório, o piloto não apresentou uma explicação para os voos realizados a baixa altitude.
"O piloto não conseguiu explicar, e a investigação não conseguiu apurar, qual o motivo do desvio em relação à rota direta de regresso à base nos diversos voos ocorridos, incluindo o voo do acidente, seguindo o sinuoso vale do rio Douro a baixa altitude", adianta a investigação.
Investigação "tendenciosa", diz defesa de piloto de helicóptero
Entretanto, a defesa do piloto do helicóptero classificou de "tendenciosa" e "parcial" a investigação do organismo que investiga os acidentes aéreos.
Segundo o defensor do piloto Luís Filipe Rebelo, "o GPIAAF tenta descrever a queda do helicóptero como uma possível manobra falhada, sustentando as suas conclusões em estudos e simulações realizadas pela empresa fabricante do dispositivo, a Airbus".
"O que revela o caráter tendencioso da investigação, uma vez que, previsivelmente, não seria a fabricante da aeronave a apontar qualquer defeito de fabrico ou falha técnica do mesmo, quando estão em causa a perda de 5 vidas que muito lamentamos", refere o advogado.
GPIAAF quer "revisão urgente" do regulamento de operação de meios aéreos
As recomendações constam do relatório final do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), a que a Lusa teve acesso, ao acidente com um helicóptero de combate aos incêndios, ocorrido em 30 de agosto, na zona de Cambres, Lamego, distrito de Viseu, no qual morreram cinco militares da GNR/Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS).
"Este acidente, bem como a envolvente regulamentar da atividade de combate aéreo aos incêndios e o número de eventos de segurança resultando em fatalidades registadas anualmente, evidenciam que há necessidade e margem para uma revisão urgente do regulamento n.º 641/2022", frisa o GPIAAF.
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